Perpetuar a ocupação <br>partilhar o saque
A maioria do Parlamento Europeu assinalou da pior forma os 5 anos de brutal agressão, destruição e saque do Iraque por parte dos EUA e seus aliados, aprovando uma resolução sobre o «papel da União Europeia no Iraque» – com base num relatório apresentado pela deputada do PS, Ana Gomes – que advoga o crescente envolvimento da UE neste país ocupado pelas tropas norte-americanas.
Por isso mesmo, a resolução consegue o «espantoso» feito de não fazer uma única menção à desumana e ilegal agressão e ocupação do Iraque, procurando, desta forma, iludir todo o rol de premeditada morte de centenas e centenas de milhares de crianças, mulheres e homens iraquianos, de destruição de todo um país, de planeado e massivo desrespeito dos direitos humanos e do inteiro sofrimento de um povo, que estas palavras não poderão traduzir em toda a sua dimensão.
Partindo do que a Comissão da UE considera ser o «ponto certo», isto é, da tentativa de ultrapassar contradições entre as grandes potências capitalistas da UE, como a França e a Alemanha, e os EUA, – nomeadamente, tendo em conta as próximas eleições para a presidência neste país –, e da apresentação da guerra e da ocupação não como do tempo e da realidade do presente, mas como algo diluído no «passado», a resolução é completamente omissa quanta à causa primeira e primordial dos gravíssimos problemas com que o povo iraquiano e o seu país hoje se confrontam e, logo, quanto ao caminho para a sua solução: a retirada imediata de todas as tropas de ocupação!
No fundo, os promotores de tal resolução pactuam com o «status quo», isto é, com a ocupação norte-americana do Iraque, apresentando-a como (mais) um «facto consumado». O seu objectivo é promover um maior papel e participação da UE em todo o quadro de ingerência no Iraque – uma «questão que dividiu a Europa no passado», como refere Ana Gomes – encarando este país como (mais) um «estado tutelado» pela e a coberto da dita «comunidade internacional», à semelhança do que actualmente se verifica no Afeganistão ou no Kosovo.
Cinismo e hipocrisia
Pasme-se, ao mesmo tempo que considera «que é necessário que os países vizinhos se abstenham de toda e qualquer ingerência nos assuntos internos do Iraque e respeitem a sua independência, soberania e integridade territorial, bem como o desejo da população iraquiana de edificar o sistema constitucional e político do país através dos seus próprios esforços» (mas sem condenar o que refere como «acções militares turcas em território iraquiano»), a resolução é um autêntico repositório de ingerência (dissimulada ou não) da UE nos assuntos internos deste país, apresentando-a como uma «nova estratégia de envolvimento activo da UE e dos seus Estados-Membros », tirando «partido da valiosa experiência adquirida... por ocasião das operações bem sucedidas» no Afeganistão e entrando no que a Comissão considera ser uma «nova fase de um processo gradual».
Daí a resolução pugnar pela necessidade de «encetar um diálogo com os Estados Unidos e procurar o reforço da multilateralização do papel desempenhado pela comunidade internacional no país, sob a égide da ONU», acrescente-se, instrumentalizada.
Ou seja, (mais) um exemplo do que realmente significa o «assumir das responsabilidades» da UE, na «qualidade de actor a nível mundial». Isto é, como temos denunciado, a criação de um bloco económico, político e militar voltado para o confronto concorrencial, por mercados, matérias-primas e mão-de-obra, por capital e domínio político do mundo, que integra articulações, alianças e acordos de partilha com os EUA e o Japão, que o tratado, agora chamado «de Lisboa», canoniza.
Leiam-se as recentes e esclarecedoras intervenções de Javier Solana (1), o ex-secretário-geral da NATO, hoje transformado em alto representante para a Política Externa da UE, onde enaltece a militarização da UE, inúmera os seus objectivos e aponta as suas prioridades, nomeadamente quanto ao controlo e exploração dos recursos naturais ao nível planetário (como a terra arável, a água e a energia), o que eufemisticamente designa por «alterações climáticas e segurança internacional».
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(1) Intervenção na Conferência da Agência Europeia de Defesa, de 27 de Fevereiro de 2008, em Bruxelas; intervenção no Cyril Foster Lecture, «Europe in the World: The next steps», 28 de Fevereiro de 2008, em Oxford; «Climate change and international security», documento para o Conselho Europeu, 14 de Março de 2008; intervenção na Conferência de presidentes das comissões de assuntos externos dos parlamentos nacionais dos Estados-Membros da UE, 17 de Março de 2008, em Liubliana.
Por isso mesmo, a resolução consegue o «espantoso» feito de não fazer uma única menção à desumana e ilegal agressão e ocupação do Iraque, procurando, desta forma, iludir todo o rol de premeditada morte de centenas e centenas de milhares de crianças, mulheres e homens iraquianos, de destruição de todo um país, de planeado e massivo desrespeito dos direitos humanos e do inteiro sofrimento de um povo, que estas palavras não poderão traduzir em toda a sua dimensão.
Partindo do que a Comissão da UE considera ser o «ponto certo», isto é, da tentativa de ultrapassar contradições entre as grandes potências capitalistas da UE, como a França e a Alemanha, e os EUA, – nomeadamente, tendo em conta as próximas eleições para a presidência neste país –, e da apresentação da guerra e da ocupação não como do tempo e da realidade do presente, mas como algo diluído no «passado», a resolução é completamente omissa quanta à causa primeira e primordial dos gravíssimos problemas com que o povo iraquiano e o seu país hoje se confrontam e, logo, quanto ao caminho para a sua solução: a retirada imediata de todas as tropas de ocupação!
No fundo, os promotores de tal resolução pactuam com o «status quo», isto é, com a ocupação norte-americana do Iraque, apresentando-a como (mais) um «facto consumado». O seu objectivo é promover um maior papel e participação da UE em todo o quadro de ingerência no Iraque – uma «questão que dividiu a Europa no passado», como refere Ana Gomes – encarando este país como (mais) um «estado tutelado» pela e a coberto da dita «comunidade internacional», à semelhança do que actualmente se verifica no Afeganistão ou no Kosovo.
Cinismo e hipocrisia
Pasme-se, ao mesmo tempo que considera «que é necessário que os países vizinhos se abstenham de toda e qualquer ingerência nos assuntos internos do Iraque e respeitem a sua independência, soberania e integridade territorial, bem como o desejo da população iraquiana de edificar o sistema constitucional e político do país através dos seus próprios esforços» (mas sem condenar o que refere como «acções militares turcas em território iraquiano»), a resolução é um autêntico repositório de ingerência (dissimulada ou não) da UE nos assuntos internos deste país, apresentando-a como uma «nova estratégia de envolvimento activo da UE e dos seus Estados-Membros », tirando «partido da valiosa experiência adquirida... por ocasião das operações bem sucedidas» no Afeganistão e entrando no que a Comissão considera ser uma «nova fase de um processo gradual».
Daí a resolução pugnar pela necessidade de «encetar um diálogo com os Estados Unidos e procurar o reforço da multilateralização do papel desempenhado pela comunidade internacional no país, sob a égide da ONU», acrescente-se, instrumentalizada.
Ou seja, (mais) um exemplo do que realmente significa o «assumir das responsabilidades» da UE, na «qualidade de actor a nível mundial». Isto é, como temos denunciado, a criação de um bloco económico, político e militar voltado para o confronto concorrencial, por mercados, matérias-primas e mão-de-obra, por capital e domínio político do mundo, que integra articulações, alianças e acordos de partilha com os EUA e o Japão, que o tratado, agora chamado «de Lisboa», canoniza.
Leiam-se as recentes e esclarecedoras intervenções de Javier Solana (1), o ex-secretário-geral da NATO, hoje transformado em alto representante para a Política Externa da UE, onde enaltece a militarização da UE, inúmera os seus objectivos e aponta as suas prioridades, nomeadamente quanto ao controlo e exploração dos recursos naturais ao nível planetário (como a terra arável, a água e a energia), o que eufemisticamente designa por «alterações climáticas e segurança internacional».
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(1) Intervenção na Conferência da Agência Europeia de Defesa, de 27 de Fevereiro de 2008, em Bruxelas; intervenção no Cyril Foster Lecture, «Europe in the World: The next steps», 28 de Fevereiro de 2008, em Oxford; «Climate change and international security», documento para o Conselho Europeu, 14 de Março de 2008; intervenção na Conferência de presidentes das comissões de assuntos externos dos parlamentos nacionais dos Estados-Membros da UE, 17 de Março de 2008, em Liubliana.